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Inovação é uma jornada – e não um destino

A grande maioria das empresas buscando inovação está pensando nela como resultado. Quer ter produtos novos e diferentes dos da concorrência, utilizar novos canais de distribuição, novas formas de se relacionar com seus consumidores, entre outras diferenciações competitivas “que os outros não tem”.

E essa é justamente a grande armadilha dessa busca por culturas de inovação: o foco está sempre no resultado e raramente no processo.

INOVAÇÃO É CAUSA. E NÃO CONSEQUÊNCIA

Atualmente, tem se falado muito em “adaptação”. A obra de Darwin tem sido usada como mantra para organizações entenderem que se adaptar é a forma de sobreviver. Mas mais do que sobreviver, adaptação é justamente o processo pelo qual a inovação e a diferenciação acontece.

Ao contrário do que o olhar mais descuidado pode interpretar, adaptação não é algo puramente reativo – também é necessária iniciativa e intenção nesse processo. Para se adaptar – ou pelo menos para fazer isso de forma mais ágil e recorrente – é necessário desapegar do estado original, que pode significar o status, processos, produtos, entre outros padrões estabelecidos. É necessário ajustar expectativas: a jornada, a longo prazo, nunca será linear, indo sempre para o mesmo lado. É preciso estar sempre aberto e enraizar uma expectativa de que sim as coisas vão mudar e não, não sabemos como.

Entender que é provável que todos esses padrões estabelecidos (muitas vezes a duras penas) precisarão ser mudados ou deixados de lado para novos formatos. Entender que o que possuímos sempre pode ser passageiro e estarmos no mínimo tão preocupados em construir quanto em proteger. 

Os resultados são consequência de inúmeras variáveis cada vez mais complexas em um mundo mais conectado, com mais pontos de troca, com mais distribuição de ferramentas de produção – sejam produtores de produtos, serviços ou informação. E sendo assim, internamente as organizações precisam se adaptar ao ambiente em que estão inseridas: replicar esse ecossistema como ele acontece do lado de fora, sendo cada vez mais interconectada entre suas partes, com mais pontos de contato e com mais distribuição de ferramentas de produção – como autonomia para decisões – para ter mais “produtores”.

E a diferença primordial e essencial que precisamos promover nisso tudo é se apegar ao processo ao invés de ao resultado. Focar na jornada mais do que no destino. E vou explicar isso com dois exemplos:

Estudo de Carol Dweck

No livro “How the Gifted Brain Learns”, David Sousa traz uma pesquisa da autora Carol Dweck (que ficou mundialmente reconhecida pelo seu livro seguinte, chamado “Mindset”) que apresenta diversos estudos realizados com centenas de alunos de quinta e sétima série do ensino fundamental nos Estados Unidos. A proposta desses estudos era analisar como diferentes formas de elogio e reconhecimento influenciam no comportamento das crianças frente a sua performance, comparando o impacto de se reconhecer a criança por sua inteligência ou por seu esforço.  

Os pesquisadores puderam observar, ao longo de um estudo de mais de dois anos, que as crianças elogiadas e reconhecidas majoritariamente por sua inteligência acabavam se tornando excessivamente “orientadas à performance” – ou seja, focadas em resultado. Elas percebiam seus bons e maus resultados como consequência de um traço inato e portanto valorizavam a performance acima de tudo. Isso automaticamente minimizava a importância do esforço e principalmente gerava uma maior aversão ao erro – era o foco no resultado. Essa percepção ao longo dos anos fez com que saíssem de ter as melhores notas da turma para acabar em um patamar mediano de performance frente aos seus pares e colegas.

Já as crianças elogiadas e reconhecidas unicamente por seu esforço, acabavam desenvolvendo um “mindset de crescimento”. Percebiam seus bons e maus resultados como consequência do seu processo de trabalho: seu esforço e dedicação empenhados em determinada tarefa. Assim, independente de um resultado bom ou ruim, seu foco permanecia no seu processo, na forma de estudar e nas coisas que controlavam para que o resultado futuramente fosse melhor. Elas acabavam valorizando mais as oportunidades de aprendizagem e estratégias para isso do que a performance em si. 

Gestão de desempenho de atletas

A nossa profunda inspiração no mundo náutico tem como um dos principais pilares justamente essa capacidade única que é desenvolvida navegando, de focar no processo mais do que no resultado. Atuando como técnico da equipe olímpica de Vela, uma das minhas principais atribuições é desenvolver os atletas para que obtenham melhores resultados nas competições. E apesar de o objetivo ser de resultados, o foco precisa ser no processo. Explico: nos mares, assim como no mercado corporativo, existem inúmeras variáveis externas ao barco (que nessa analogia seria a empresa) e que fogem do controle da tripulação. As mudanças dos ventos, das marés e dos adversários estão ocorrendo a todo instante e muitas vezes não são nem possíveis de se prever com um mínimo de confiabilidade. 

Créditos: Matias Capizzano

O resultado em uma competição é portanto uma consequência de como todas essas variáveis externas, dinâmicas e incontroláveis se combinam com as variáveis que controlamos: a velocidade do barco, a comunicação da equipe, as decisões tomadas, etc… Quem conseguir se posicionar melhor que os adversários para aproveitar os ventos e marés, tomar melhores decisões e manter o barco mais rápido, será o vencedor.

Porém como técnico, sou responsável pelos feedbacks e pelo desenvolvimento do meu time. E se eu focar em resultados estarei sendo totalmente superficial na análise e no processo de evolução do meu time. Eles precisam estar constantemente adaptando a maneira de conduzir o barco de acordo com as mudanças de vento que ocorrem e que muitas vezes eles não tem como prever. É frequente que mudanças imprevisíveis influenciem fortemente o resultado deles em uma competição.

O que precisamos ter como foco então é o seu processo, mais do que o seu resultado: em como estão lidando com essas mudanças, com que velocidade estão reagindo, como estão se comunicando para fazer as adaptações necessárias, etc… O que determina um elogio ou uma crítica não é apenas o resultado em si, mas principalmente o processo pelo qual chegaram a ele. É comum que uma vitória em uma competição não seja celebrada, mas sim analisada e criticada minuciosamente para gerar evolução. Assim como por vezes uma derrota (ou um resultado abaixo do esperado) pode ser celebrado e valorizado pela maneira com que foi atingido.

CONCLUSÃO

Esse cenário, por mais inusitado que pareça, cada vez mais descreve a situação das empresas e times que atuam em segmentos com inúmeras variáveis. Focar de maneira tão primordial no resultado é ter um olhar superficial que, paradoxalmente, dificilmente levará aos resultados desejados.

A cultura de inovação é um tema que veio com força, muito por influência de uma “importação cultural” do Vale do Silício. O perigo é que as pessoas que se apaixonam pelo resultado que vêem normalmente acabam ficando cegas para o processo que o gerou. E isso é um problema por que inovação não é resultado, é processo de adaptação constante. 


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De |2020-07-29T10:00:20+00:00julho 28th, 2020|Categorias: Conteúdos|0 Comentários

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