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Sobre Shackleton e Liderança

  • View Larger Image Navegação em mar congelado
    André Flores é facilitador e consultor na PrimeSail. Publicitário de formação e Pós-Graduado em Ciências do Consumo pela ESPM-SUL com especialização em Liderança para Crescimento e Mudança na Columbia University (EUA).

Procura-se: homens para viagens perigosas. Salários baixos, frio intenso, longos meses de completa escuridão, perigo constante e retorno seguro duvidoso. Honra e reconhecimento em caso de sucesso.
Foi com essas palavras que Ernst Shackleton anunciou a busca por sua tripulação, que viria a protagonizar uma das maiores façanhas da humanidade.

Apesar dessa história ter mais de 100 anos, segue mais relevante do que nunca. É uma história real que exemplifica de forma prática e inspiradora como líderes podem atuar em cenários de absoluta incerteza. Como podem gerenciar a insegurança e a motivação dos times mesmo quando parecem não existir saídas.

Shackleton liderou seus homens por uma jornada extremamente desafiadora, com:

  • condições adversas
  • obstáculos mudando a cada dia
  • futuro absolutamente incerto. 

Isso foi em 1915, mas essa descrição caberia muito bem para os desafios que os líderes corporativos vivem hoje, em tempos de incerteza.

A relação de Ernst Shackleton com o cenário atual

A volatilidade e a ambiguidade do momento que as empresas vivem exige cada dia mais dos líderes. Seja um diretor de uma grande corporação, um gerente em ascensão ou o CEO de uma start-up, todos se questionam: “Como gerenciar e liderar em uma grande turbulência/incerteza/tempestade, especialmente quando muito está em jogo?”

E para buscar inspiração que ajude a responder essa pergunta, nada melhor do mergulharmos um pouco na história de Ernst Shackleton. Um velejador e explorador polar que em 1915 liderou 27 homens numa frustrada expedição antártica (que se transformou em luta pela sobrevivência). E conseguiu trazer todos de volta em segurança, mesmo contra todas as probabilidades.

A história de Shackleton

Durante 19 meses ele viveu um cenário aterrorizante. Devido a uma mudança climática, o gelo derretido acabou endurecendo. E o Endurance (seu navio) ficou preso sem conseguir sair do lugar. Alguns meses depois, as mesmas placas se moveram e ele e a sua tripulação assistiram o navio ser engolido para o fundo do mar. Ficaram então à deriva durante várias semanas num “iceberg” a cerca de 300 km do continente Antártico, com provisões escassas e somente com botes de apoio. Após avistarem terra firme, conseguiram usar os botes para chegar nas Ilhas Elefantes, o que não foi suficiente por não serem não eram habitadas. Era necessário mais um esforço. 

Se lançou, então, com 5 homens em uma viagem de bote percorrendo 1400 quilômetros em alto mar até as Ilhas da Geórgia do Sul. Chegando lá em uma estação baleeira, o resgate ainda não estava completo: precisava retornar até a sua tripulação. Durante 4 meses tentou por diversas vezes furar o bloqueio do gelo sem sucesso. Até que em 31 de agosto de 1916, Shackleton conseguiu finalmente voltar às Ilhas Elefantes. Cumprindo, assim, sua missão de resgatar os 22 homens que lá estavam.

Os ensinamentos dessa saga seguem importantes nos dias de hoje. Isso porque saber lidar e liderar na incerteza é uma das habilidades mais relevantes para qualquer profissional do nosso tempo.

As lições de liderança de Shackleton

Shackleton mostra aquilo que esperamos de um grande capitão: um norte claro (mesmo que esse norte tenha mudado ao longo da jornada indo de “glória” para “sobrevivência”), uma capacidade enorme de manter o time funcionando, fluxo contínuo de informação e o empoderamento da sua tripulação para agir de forma autônoma.

Porém, os dois elementos centrais da jornada foram: a sua enorme capacidade de adaptação (como todo bom velejador) . E a sabedoria em usar os pequenos gestos reais como ferramenta de gestão. 

Capacidade de Adaptação

Shackleton nos mostra que ler os cenários dinâmicos e agir rapidamente é fundamental no caminho para o sucesso. E essas mudanças podem acontecer nos mais diversos níveis. 

  • Em tempos de crise, os objetivos podem mudar.

Inicialmente a expedição tinha como objetivo atravessar o continente antártico de mar a mar, passando pelo polo. Mas depois que o navio afundou, o objetivo passou a ser a sobrevivência. Em muitos dos negócios os objetivos mudaram com esse cenário atual, e ter essa compreensão ajuda em toda jornada.

O dinamismo do cenário exige de nós alterações. Mas também exige das lideranças a capacidade de equilibrar a “convicção no objetivo” com a “flexibilidade” ao longo do caminho. Sem isso o time pode ficar à deriva.

  • Os recursos não são eternos, inclusive a sua certeza.

Shackleton já tinha ido a 3 explorações polares. Sabia bastante sobre o cenário, mas nunca tinha estado naquela situação específica antes. É normal que em tempos de incerteza os líderes se sintam “perdidos” sem todas as respostas. Mas isso faz parte da jornada.

Shackleton teve vários momentos de crise, mas nunca deixou de acreditar no que estava fazendo, mesmo que não tivesse todas as respostas. 

  • Seu time demanda posições distintas em momentos distintos.

Um dos grandes traços da personalidade de Shackleton era a inteligência emocional e sua grande empatia. Ele sabia ler a sua tripulação como ninguém. E isso fez com que ele obtivesse resultados fora da curva principalmente por saber gerenciar a “energia” do time. 

Ele vivenciou diversas mudanças de moral da tripulação dentro dos meses que ficaram presos no gelo (inclusive um quase motim).  Mas alternava seu comportamento, trazendo respostas para cada momento.  Mesmo quando suas decisões não agradavam à todos, soube quando se aproximar, e quando se afastar. Quando acelerar ou quando desacelerar o passo de todos.

Gestos reais como ferramenta de gestão

Outra lição fundamental de liderança em tempo de crise que Shackleton nos traz, saber tangibilizar os seus valores em pequenos atos reais. Isso lembrava e reforçava à todos na tripulação quais eram os elementos fundamentais que regiam a convivência e o funcionamento do time.

Raramente somos ensinados como líderes e gerentes que as pequenas ações que realizamos ao longo do dia importam, ainda mais em momentos de incerteza onde as pessoas tendem a buscar a liderança como porto seguro. A maneira como um líder se porta nesse momento é educativa. Se você está olhando para o telefone enquanto se senta em uma reunião em breve todos o farão. Shackleton entendia isso e usava isso a seu favor para criar estabilidade. Como?

  • Improvisando

Logo na manhã seguinte ao naufrágio do navio, Shackleton sabia que precisava improvisar. Não estava em nenhum manual o que fazer quando seu navio é engolido pelo gelo e a sua tripulação está apavorada e sem esperança. E ele acordou toda a tripulação com chá quente e palavras de confiança, mostrando a calma necessária para re-engajar seu time. E mais do que isso, ele se colocou à disposição, se fez presente. Não entrou no escritório, ligou o computador e fechou a porta.

  • Mantendo o espírito elevado

Mesmo com recursos de comida escassos fazia questão de “banquetes” em datas comemorativas como páscoa, natal e ano novo. Isso unia a todos e mantinha os espíritos elevados. Em momentos de crise é muito comum pensarmos em economias de corte de custos, mas nem sempre pensamos que algumas coisas detém um simbolismo que transcende o seu valor monetário.

  • Se envolvendo diretamente

Se envolvia diretamente e diariamente na montagem das escalas de serviço. Ajudando a escolher quem iria realizar determinada tarefa e quem estaria naquele time. Isso pode parecer “micro-gerenciamento” para alguns, mas lembrem-se cada cenário exige mudanças do líder, naquele momento era necessário dar relevância à todas as tarefas e mesclar todo mundo sempre, evitando a formação de silos.

  • Garantindo o pertencimento dos comandados

E todas as noites girava no acampamento falando individualmente com todos os 27 membros da tripulação, sem exceção ou ordem de importância. Isso gerava um sentimento de pertencimento e lealdade nos seus comandados.

Conclusão

É claro que ao longo da jornada ocorreram equívocos, nenhum líder é um herói sem falhas. Mas nos quase 20 meses em que esteve à prova, Shackleton sempre soube evitar a armadilha do martírio. Em última instância foram os erros dele que conduziram o time para aquela situação (Navegou rápido demais, não tinha barco de apoio, etc..). Mas ele sempre deixava isso para trás, sem ficar pensando muito na sua imagem com o time, ou remoendo as consequências das suas ações. Simplesmente seguia adiante de forma rápida, se adaptando aos novos contextos e aprendendo com o que tinha feito.

Com perseverança, capacidade de adaptação e ações reais para pessoas reais, Shackleton prometeu honra e reconhecimento em caso de sucesso. Trouxe 27 pessoas sãs e salvas de uma jornada quase inacreditável e se tornou um dos grandes modelos de liderança do nosso tempo.

PS: Em 1920, após alguns anos longe do mar, organizou uma nova expedição ao Polo Sul, curiosamente 12 dos seus antigos comandados retornaram para essa aventura mostrando o impacto que o líder teve em suas vidas. Shackleton nunca chegou a colocar os pés no seu tão sonhado destino, faleceu durante a viagem e foi enterrado na ilha Geórgia do Sul, onde 5 anos antes tinha vivido seu grande momento.

 

De |2020-05-15T15:32:28+00:00maio 15th, 2020|Categorias: Não categorizado|0 Comentários

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